por Henrique Wagner, no site EXPOART
Gosto de Dramaturgia. Provavelmente por isso eu não tenha gostado da peça escrita e dirigida por Adelice Souza, em cartaz na Sala do Coro do TCA, representando – mal – a 14º montagem do Núcleo de Teatro do Teatro Castro Alves. Entre Artaud e Shakespeare eu sequer hesitaria: o bardo inglês seria o escolhido. Acontece que não sou discípulo de Maniqueu, de modo que não preciso me sentir acossado, tendo de fazer esse tipo de escolha.
Jeremias, profeta da chuva paralisa o drama. E não se trata de teatro experimental ou qualquer coisa a la Sarah Kane – com sua protagonista parada a peça inteira – ou Beckett. Pretende-se um épico sertanejo, entre a maleita de Lúcio Cardoso – escritor mineiro da geração de 30 – e a ventania mórbida de Eduardo Mallea – escritor argentino, autor de um vigoroso, embora empolado romance, dentre tantos outros, chamado Todo Verdor Perecerá. Pretende-se um épico entre, mas apenas entre: nem uma coisa nem outra.Logo de início, os atores, quase que despidos de seus personagens, fazem uns movimentos nada artísticos, que se aproximam do atletismo, do esporte ou educação física colegial, espécie de aquecimento que deveria ser feito na coxia. O que é aquilo senão isso? Uma homenagem ao “preparador físico” do elenco? Deu-me engulho e quase desisti da possibilidade de um desenredo. Se havia alguma idéia genial por trás dessa cena eu certamente não fui capaz de alcançar, com minha pobre hermenêutica.
A peça é uma sucessão de personagens, mais que de cenas, embora a autora afirme, no livreto, haver 13 cenas no espetáculo. A impressão que eu tive é aquela de sempre, quando se trata de teatro “oficial”, ou seja, às expensas do erário: distribuição de papéis para determinado número de atores. Algo como um teatro socialista, com intervenção do Estado, “para o bem de todos”. Ou as peças didáticas de um liceu. Não me lembro de ter assistido a um monólogo montado pelo núcleo de teatro do TCA. Assim, os personagens vão passando pela praça (é nossa?), fazem seu número e vão embora. Caricatos, irritantes, excessivos, superficiais – Rosinha, interpretada por Simone Brault, é insuportável! A voz, o texto, o borrão dos gestos. E o que dizer de Seu Lunário, vivido por Bira Freitas? Aquilo parece quadro do Zorra Total!: sem graça, monótono, insípido. Aliás, a peça inteira é um movimento só. Monocórdia, fez pelo menos cinco pessoas dormirem, e estou me referindo às que se achavam próximas a mim. Vai saber o que acontecia com a turma do fundão. Ao meu lado uma senhora dormia a sono solto, provavelmente já em casa, sobre a cama tão sua conhecida.
Mas há Jeremias. A peça quase é redimida pela presença irradiante, intensa e “verdadeira” de Antonio Fabio, dando vida ao personagem principal, o profeta da chuva. E ainda Claudia Di Moura, mais uma vez saborosíssima, fazendo o personagem Dona Docha, rezadeira da cidade. Claudia parece a encarnação do personagem criado por Adelice: imprime a ele uma cola, um visgo que nos leva a confundir criador e criatura. Perfeita. Aliás, Claudia Di Moura vem fazendo um itinerário irrepreensível já há bons anos, e se destacou de todo o elenco, ao participar do Policarpo de Luiz Mahfuz, montagem premiada, produzida pelo mesmo núcleo de teatro.
Mas e a história? A trama? A tragédia? Acreditem, depois do romance de 30 no Brasil, do cinema de Nelson Pereira dos Santos, do ciclo baiano de cinema, iniciado por Redenção; depois de Deus e o Diabo na Terra do Sol e a retomada de Walter Salles, com Central do Brasil e Abril Despedaçado (filmes que jamais foram brasileiros, em verdade, sobretudo o segundo; em nome dos brasileiros, peço perdão, Kadaré!), ainda há quem tenha o que falar da seca no nordeste. Em verdade não tem o que falar, e dá nisso – Jeremias. O profeta sou eu, que já sabia de tudo...
Adelice criou Jeremias, o profeta da chuva, inspirando-se na figura bíblica, de mesmo nome, que prevê a chegada de Nabucodonosor, para a desgraça de Jerusalém. O espaço físico é Salvador dos Brejos, uma cidade qualquer do sertão, como a Pirapora de Maleita. Jeremias não dorme (nem nada), engaiolado pela ausência de sinais da natureza que indiquem chuva. Profeta famoso na região, dessa vez se vê traído, sente-se desse jeito, traído pela natureza ou desprestigiado diante do Todo-Poderoso.
A peça é um nada-acontece quase interminável, enquanto Jeremias cisca daqui e dali, sem botar o bendito ovo. Esperando Godot, mas sem os diálogos brilhantes de Beckett, a peça termina com uma tentativa de epifania que, de tão óbvia e ao mesmo tempo estranhamente súbita e forçada, leva a platéia, sonolenta, àquele tipo de susto causado por um bater de palmas ao pé do ouvido, sem saber a vítima o dono das mãos. Antes do fim, Adelice tratou de “caprichar” no recheio, enxertando a peça com tudo quanto é manifestação popular da seca: reisado, cantorias, teatro de sombras etc. É a hora em que o teatro anda para trás em mais de um milênio e volta a ser ritual, sem qualquer criação em torno dos fatos – em suma, sem arte. A peça ganha em movimento, em ação, em colorido, acorda a platéia e realça a impressão de que o problema está mesmo no texto. O comercial – a propaganda – é melhor que o programa.
Sem dramaturgia, até mesmo o trabalho de Helio Eichbauer, gênio da cenografia brasileira, fica comprometido. Ainda assim, está lado a lado à qualidade da interpretação de Antonio Fábio, com seu Jeremias na medida certa. Sem dramaturgia, aposta-se nos tipos. Ricardo Fagundes faz o tipo doido subnutrido, domesticado, comum nas histórias do sertão. Dochinha, menino meio mudo, meio retardado mental, filho de Dona Docha – ou afilhado, é irritante, talvez por conta do grande esforço, recompensado, aliás, empreendido por Ricardo. O texto de Adelice Souza, contista premiada, com dois bons livros de contos publicados – apesar de nada originais, seus contos, mesmo maneiristas, seduzem o leitor; isso, hoje, em tempos de Milton Hatoum, Cristóvão Tezza e Bernardo Carvalho, já é muito –, é ruim a ponto de comprometer a natureza do drama. Eu não esperava uma curva ou lordose dramática, mas me espantou a falta de capacidade do texto de dar propulsão física a seus “falantes”. Uma leitura dramática, no máximo, talvez desse conta do recado.
O tema é ótimo para ganhar edital, e não deu outra. Em 2007 o jornal A TARDE publicava um artigo meu em que eu falava como andava pop a cultura popular. Os franceses adoram os negros baianos. Os alemães adoram nossos cordéis, os italianos adoram nossas mulatas, e os burgueses baianos substituíram o público suburbano, em rodas de pagode do mais baixo nível. Patricinhas e Mauricinhos “quebram” até o chão. A morte e vida severina, no entanto, continua matando de velhice antes dos trinta. Há sempre uma exploração – rentável financeiramente – da miséria que se faz beleza pela dor, seja nas fotos exaustivamente discutidas, de Sebastião Salgado, na Estética da Fome de Glauber Rocha ou na mais enfadonha peça de teatro que eu até então assisti, em que um profeta passa mais de uma hora, diante de uma platéia minúscula – prova de que a propaganda boca-a-boca não está do lado da obra –, visitando tipos em 13 cenas bem dirigidas, mas não o suficiente para criar um biombo que esconda o buraco textual. Ainda que Jeremias profetizasse algo, antes do fim quase patético da peça, não haveria um plot para o drama. Sim, a vida corre, enquanto o nada acontece. Mas poucos são os que sabem transformar o nada em poesia. E menos ainda em ação. Mais uma vez o nome de Beckett avulta.
Sinopse da peça? Um homem espera a chuva no sertão. Eu não estaria errado. Nem Jeremias. Numa terra em que a histeria é mais comum que a apatia, a peça de Adelice Souza – que certamente ganhará prêmios no Braskem de Teatro – deu um passo vigoroso à pulverização de platéias baianas.
E isso não é uma profecia. Continue a Ler…
