terça-feira, 8 de setembro de 2009

O profeta sou eu!

por Henrique Wagner, no site EXPOART

Gosto de Dramaturgia. Provavelmente por isso eu não tenha gostado da peça escrita e dirigida por Adelice Souza, em cartaz na Sala do Coro do TCA, representando – mal – a 14º montagem do Núcleo de Teatro do Teatro Castro Alves. Entre Artaud e Shakespeare eu sequer hesitaria: o bardo inglês seria o escolhido. Acontece que não sou discípulo de Maniqueu, de modo que não preciso me sentir acossado, tendo de fazer esse tipo de escolha.

Jeremias, profeta da chuva paralisa o drama. E não se trata de teatro experimental ou qualquer coisa a la Sarah Kane – com sua protagonista parada a peça inteira – ou Beckett. Pretende-se um épico sertanejo, entre a maleita de Lúcio Cardoso – escritor mineiro da geração de 30 – e a ventania mórbida de Eduardo Mallea – escritor argentino, autor de um vigoroso, embora empolado romance, dentre tantos outros, chamado Todo Verdor Perecerá. Pretende-se um épico entre, mas apenas entre: nem uma coisa nem outra.

Logo de início, os atores, quase que despidos de seus personagens, fazem uns movimentos nada artísticos, que se aproximam do atletismo, do esporte ou educação física colegial, espécie de aquecimento que deveria ser feito na coxia. O que é aquilo senão isso? Uma homenagem ao “preparador físico” do elenco? Deu-me engulho e quase desisti da possibilidade de um desenredo. Se havia alguma idéia genial por trás dessa cena eu certamente não fui capaz de alcançar, com minha pobre hermenêutica.

A peça é uma sucessão de personagens, mais que de cenas, embora a autora afirme, no livreto, haver 13 cenas no espetáculo. A impressão que eu tive é aquela de sempre, quando se trata de teatro “oficial”, ou seja, às expensas do erário: distribuição de papéis para determinado número de atores. Algo como um teatro socialista, com intervenção do Estado, “para o bem de todos”. Ou as peças didáticas de um liceu. Não me lembro de ter assistido a um monólogo montado pelo núcleo de teatro do TCA. Assim, os personagens vão passando pela praça (é nossa?), fazem seu número e vão embora. Caricatos, irritantes, excessivos, superficiais – Rosinha, interpretada por Simone Brault, é insuportável! A voz, o texto, o borrão dos gestos. E o que dizer de Seu Lunário, vivido por Bira Freitas? Aquilo parece quadro do Zorra Total!: sem graça, monótono, insípido. Aliás, a peça inteira é um movimento só. Monocórdia, fez pelo menos cinco pessoas dormirem, e estou me referindo às que se achavam próximas a mim. Vai saber o que acontecia com a turma do fundão. Ao meu lado uma senhora dormia a sono solto, provavelmente já em casa, sobre a cama tão sua conhecida.

Mas há Jeremias. A peça quase é redimida pela presença irradiante, intensa e “verdadeira” de Antonio Fabio, dando vida ao personagem principal, o profeta da chuva. E ainda Claudia Di Moura, mais uma vez saborosíssima, fazendo o personagem Dona Docha, rezadeira da cidade. Claudia parece a encarnação do personagem criado por Adelice: imprime a ele uma cola, um visgo que nos leva a confundir criador e criatura. Perfeita. Aliás, Claudia Di Moura vem fazendo um itinerário irrepreensível já há bons anos, e se destacou de todo o elenco, ao participar do Policarpo de Luiz Mahfuz, montagem premiada, produzida pelo mesmo núcleo de teatro.

Mas e a história? A trama? A tragédia? Acreditem, depois do romance de 30 no Brasil, do cinema de Nelson Pereira dos Santos, do ciclo baiano de cinema, iniciado por Redenção; depois de Deus e o Diabo na Terra do Sol e a retomada de Walter Salles, com Central do Brasil e Abril Despedaçado (filmes que jamais foram brasileiros, em verdade, sobretudo o segundo; em nome dos brasileiros, peço perdão, Kadaré!), ainda há quem tenha o que falar da seca no nordeste. Em verdade não tem o que falar, e dá nisso – Jeremias. O profeta sou eu, que já sabia de tudo...

Adelice criou Jeremias, o profeta da chuva, inspirando-se na figura bíblica, de mesmo nome, que prevê a chegada de Nabucodonosor, para a desgraça de Jerusalém. O espaço físico é Salvador dos Brejos, uma cidade qualquer do sertão, como a Pirapora de Maleita. Jeremias não dorme (nem nada), engaiolado pela ausência de sinais da natureza que indiquem chuva. Profeta famoso na região, dessa vez se vê traído, sente-se desse jeito, traído pela natureza ou desprestigiado diante do Todo-Poderoso.

A peça é um nada-acontece quase interminável, enquanto Jeremias cisca daqui e dali, sem botar o bendito ovo. Esperando Godot, mas sem os diálogos brilhantes de Beckett, a peça termina com uma tentativa de epifania que, de tão óbvia e ao mesmo tempo estranhamente súbita e forçada, leva a platéia, sonolenta, àquele tipo de susto causado por um bater de palmas ao pé do ouvido, sem saber a vítima o dono das mãos. Antes do fim, Adelice tratou de “caprichar” no recheio, enxertando a peça com tudo quanto é manifestação popular da seca: reisado, cantorias, teatro de sombras etc. É a hora em que o teatro anda para trás em mais de um milênio e volta a ser ritual, sem qualquer criação em torno dos fatos – em suma, sem arte. A peça ganha em movimento, em ação, em colorido, acorda a platéia e realça a impressão de que o problema está mesmo no texto. O comercial – a propaganda – é melhor que o programa.

Sem dramaturgia, até mesmo o trabalho de Helio Eichbauer, gênio da cenografia brasileira, fica comprometido. Ainda assim, está lado a lado à qualidade da interpretação de Antonio Fábio, com seu Jeremias na medida certa. Sem dramaturgia, aposta-se nos tipos. Ricardo Fagundes faz o tipo doido subnutrido, domesticado, comum nas histórias do sertão. Dochinha, menino meio mudo, meio retardado mental, filho de Dona Docha – ou afilhado, é irritante, talvez por conta do grande esforço, recompensado, aliás, empreendido por Ricardo. O texto de Adelice Souza, contista premiada, com dois bons livros de contos publicados – apesar de nada originais, seus contos, mesmo maneiristas, seduzem o leitor; isso, hoje, em tempos de Milton Hatoum, Cristóvão Tezza e Bernardo Carvalho, já é muito –, é ruim a ponto de comprometer a natureza do drama. Eu não esperava uma curva ou lordose dramática, mas me espantou a falta de capacidade do texto de dar propulsão física a seus “falantes”. Uma leitura dramática, no máximo, talvez desse conta do recado.

O tema é ótimo para ganhar edital, e não deu outra. Em 2007 o jornal A TARDE publicava um artigo meu em que eu falava como andava pop a cultura popular. Os franceses adoram os negros baianos. Os alemães adoram nossos cordéis, os italianos adoram nossas mulatas, e os burgueses baianos substituíram o público suburbano, em rodas de pagode do mais baixo nível. Patricinhas e Mauricinhos “quebram” até o chão. A morte e vida severina, no entanto, continua matando de velhice antes dos trinta. Há sempre uma exploração – rentável financeiramente – da miséria que se faz beleza pela dor, seja nas fotos exaustivamente discutidas, de Sebastião Salgado, na Estética da Fome de Glauber Rocha ou na mais enfadonha peça de teatro que eu até então assisti, em que um profeta passa mais de uma hora, diante de uma platéia minúscula – prova de que a propaganda boca-a-boca não está do lado da obra –, visitando tipos em 13 cenas bem dirigidas, mas não o suficiente para criar um biombo que esconda o buraco textual. Ainda que Jeremias profetizasse algo, antes do fim quase patético da peça, não haveria um plot para o drama. Sim, a vida corre, enquanto o nada acontece. Mas poucos são os que sabem transformar o nada em poesia. E menos ainda em ação. Mais uma vez o nome de Beckett avulta.

Sinopse da peça? Um homem espera a chuva no sertão. Eu não estaria errado. Nem Jeremias. Numa terra em que a histeria é mais comum que a apatia, a peça de Adelice Souza – que certamente ganhará prêmios no Braskem de Teatro – deu um passo vigoroso à pulverização de platéias baianas.

E isso não é uma profecia.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Crônica de uma Cultura na UTI

por Gideon Rosa*, retirada do blog Cultura na UTI

Um pouco de humor não deve fazer mal para ninguém, não é verdade? Estive refletindo sobre a queda do secretário de educação Adeum Sauer. Aí, depois de perceber a rapidez com que ele foi defenestrado do governo, lembrei da resistência de Márcio Meireles. Apesar de ter cometido atrocidades infinitamente maiores, o rapaz continua no cargo, agarrado no pelo da vaca leiteira tal qual um carrapato rodoleiro. Minha conclusão simplista: a mãe-de-santo de Adeum Sauer, claro, não é a mesma de Márcio Meireles. Quando veio de Itabuna para a Bahia, ele deveria ter se consultado imediatamente com Márcio, pois ele consegue passar de um governo para o outro com uma indefectível cara de herói e grande artista, muito embora tenha um ódio mortal de seus pares. Não importa, da direita a esquerda (incluindo todos seus matizes), lá está Meireles fartando-se das verbas públicas, e isso vem desde os tempos dos militares.

Como assim? Ora, ora, esse monólito tem mais faces do que pode imaginar nossa vã filosofia. Fora outros arroubos comportamentais privados que não interessam a ninguém, podemos lembrar que ele transitava absoluto na Sala do Coro (então embrionária) do TCA, que era de uso quase exclusivo do grupo Avelãz y Avestruz. E ainda era o governo Roberto Santos. Em seguida, em 79, já no governo ACM, além do contínuo apoio do Estado, veio a benesse do extinto Serviço Nacional de Teatro (SNT) e duas kombis caíram na mão do Avelãz y Avestruz, que assim pôde circular pelo Brasil. Depois, veio o governo João Durval, quando tudo continuou, mas ficou bom mesmo foi quando entrou Waldir, o breve. Aí foi a festa. Empossado diretor do Teatro Castro Alves elaborou um mirabolante projeto de vender o TCA para construir, sob o Campo Grande, um estrondoso shopping cultural, com estacionamento, que desaguaria numa extraordinária visão da Bahia de Todos os Santos através de um subterrâneo que seria cavado até o Palácio do Arcebispado, que hoje já virou edifício. Mas o resultado disso tudo foi entregar um TCA fechado, sem servir para coisa alguma. E os anos seguintes? A história da reconstrução do TVV é, por si, emblemática, pois com dinheiro privado é que não foi.

O cerne do problema da política cultural na Bahia é de incompetência. Locupletaram-se todos nos cargos, mas o que fazer? Não sabem, pois do governador até ao mais humilde assessor recém-empossado, há uma ignorância profunda sobre do que se trata mesmo esse negócio da cultura. Se o governador pudesse avaliar competentemente o problema já teria trocado seu time nos primeiros seis meses, não esperaria sequer um ano, porque, está mais do que evidente que seu pessoal anda pisando na bola com os setores produtivos. Artistas ativos com até três décadas de muito suor nas axilas (sim, porque artista varre chão, carrega peso, desmonta cenário, trabalha sem hora para terminar) estão todos impedidos de exercer seu ofício porque, uma vez empossado como secretário, ele resolveu vingar-se dos seus pares que não lhe renderam homenagem. Como? Desacreditou todos os mecanismos que viabilizavam a produção, expulsou os parcos empresários que simpatizavam com as artes, e, em se tratando de verbas do Estado resolveu pulverizá-las para que ninguém mais produzisse qualquer ousadia. Em dois anos e meio de poder absolutista, nosso secretário de cultura conseguiu produzir apenas mediocridades, eventos que já se perderam na bruma da memória, mas consumiram muito dinheiro público. Quanta diferença isso faria se esse montante tivesse sido jogado para incrementar a produção artística! Infelizmente, apenas o governador não consegue perceber o desastre que é tudo isso: a produção artística baiana foi jogada no retrocesso que nos remete ao início dos anos 80, ou antes.

Mas talvez, para quem está acostumado com a lide sindical, seja normal passar grande parte do tempo em inócuas reuniões, seminários e encontros, que jamais apresentaram qualquer resultado concreto, a não ser um surpreendente mapeamento territorial que servirá muito bem aos propósitos de perpetuação no poder. Bem, talvez o objetivo seja apenas esse e, então, nada mais interessa e o que foi feito nesse sentido basta. Governador, em outubro próximo acontece em Salvador a segunda edição do Festival Internacional de Artes Cênicas (FIAC). Deveria ser aquele momento em que brincantes daqui e de várias partes do Brasil e do mundo diriam uns aos outros: “Mostra o seu que eu mostro o meu”. Porque nos últimos dois anos a Bahia não fomentou produções artísticas significativas, não teremos o que mostrar de novo, a não ser que seja um rol de repetições, ou as coisas do Vila, velho. Pois, sim, ao vencedor, as batatas!

*Gideon Rosa é ator e jornalista

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Tsurus

Todos os dias passo na ponte do parque Akaifuu. Deixo que algum instante escorregue enquanto observo os tsurus dançando. Reconheço aquele casal, a pena vermelha única e deslocada na asa direita da fêmea e o macho de canto mais agudo que os demais. Ser um tsuru, com um parceiro-espelho dançando comigo: ininterruptos, anunciando ao mundo o tamanho da dor que nos tomaria se alguma distância fosse espremida entre nós; amadurecermos e dançarmos menos, e menos, e menos, para nos olharmos mais e adormecermos convolutos. Incrível como eles suportam tanto frio para bailarem frente a frente.

A tua falta de medo de perder a alma pela boca que me pôs devoto a ti por completo. Meu sangue pulsou ao contrário quando vi o quão brancos teus dentes eram naquele riso, naquela gargalhada. Toda a mesa ria comedida, segurando o que tinha por dentro com os dedos e a palma da mão; tu derramavas o ser feliz pelos cantos da boca, pelo palato à vista, pela úvula rosada – um espírito tão grande não temia escapar um tantinho só. E te ias como se sempre fosses voltar para completar o diálogo frouxo que restava nos ambientes abandonados.

Ainda estava morno quando tu chegaste. Avistamo-nos no exato momento em que decidi não mais piscar os olhos. Saboreei o teu sotaque torto. E me pareceu óbvio o motivo de eu ter comprado os papeis de origami no dia anterior – faria agora mil tsurus, aos moldes dos dançarinos do parque, a fim de que pudesse desejar, quando estivessem prontos, ter ar para te dizer das belas sakuras que desabrocharam no parque, nas paredes do meu quarto e em mim naquele dia.

Ontem à tarde, quando todos no templo Niji, pendurei um amuleto pensando em ti. Pedi que o meu desejo fosse maior, maior que a espera pela Primavera.

Hoje me ponho de pé, diante do teu aconchegante portão verde, afundando devagar na neve teimosamente branca, buscando o fôlego no ar fino e raro do Inverno. Seguro para te dar, suave e firme, o meu desejo: o milésimo tsuru dobrado na estampa das mesmas sakuras internas.

Este tsuru é teu.

Alcanço a porta da frente, que é aberta quase a tempo de eu me evadir. Um aroma de chocolate escapa de lá, doce. Atrevo-me a pensar que estás a me preparar um chocolate pelo 4 de Fevereiro. Talvez com cerejas frescas? Surge então a anfitriã, o motor da porta astuta. Uma garota de cabelo brasil e olhos pactuados com a brasa dos fios. Ela não foca ponto algum que pudesse ser alcançado. Aproxima-se morosa e perene. E me põe na palma da mão, junto com algumas lágrimas (não sei a quem pertencem), uma pena vermelha.

Enterrei-os, todos os tsurus.

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