Doutor, estou doente.
Só me apraz o quente, e é tão urgente!
É jeito de gente? Coisa da mente?
Por mais que tente...
É a peste, garoto, nos laços fosfolipídicos
– e também fluídicos!
Tua mesmo antes do dia fatídico
da tua fuga do mundo gravídico.
Nunca fui tão vatídico.
Sinto, doutor, não haver mais volta,
e nem penso em qualquer revolta,
pois sei que não me solta:
paixão febril envolta:
quero gozar a recolta!
Degusta, garoto do desejo pleno,
o sabor do dúbio vasqueiro veneno.
Quem a ti vê desde pequeno
sabe que não é ameno
o teu interior, moreno.
Então, doutor, faz-me um corte
bem aqui onde o norte
aponta: vejo chegar o olho da sorte
que empurra forte
a vontade da não-morte.
Vejo não teres, garoto, em ti o tolontro
que todos ganhamos com o recontro
diário. Feliz que a ti encontro
pronto!
Farei ao doutor um feitiço
definitivo: porei cor de volta ao mortiço
sorriso. Que se extinga o cediço,
que esmoreça o postiço,
que ressurja o teu viço!
Agradeço, garoto – ou seria menino?
Por trazeres a mim de novo. Divino
é o teu destino:
roxo, inteiro. Paladino!
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Contágio
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