sábado, 16 de janeiro de 2010

Diário de Bordo

Sábado, noite chuvosa.

Termina o jantar, põe os pratos na pia da cozinha e anda em direção à sala. O telefone toca. Atende-o. Um silêncio que faz zumbido nos ouvidos precede o “Alô?” aflito que chega através do fio. Ainda e sempre aflita, a voz feminina e úmida do interlocutor derrama-lhe palavras custosas. Desliga. Com a incredulidade que lhe assoma a aura, escorre pelas escadas, em direção ao quarto. Passos pesados. O bater da porta ecoa por toda a casa. Senta-se sobre a cadeira, apanha o conhecido diário de capa verde, abre numa página qualquer e, apoiando-se sobre a mesa, põe-se a escrever.

“É difícil decifrar essa coisa que temo tanto: o futuro. Quer dizer, por que tenho tanto medo do futuro? É só questão de tempo, não é mesmo? Para alguém que já se confundiu à mentira por todos esses anos, ele não deveria ser tão assustador. Mas... Por quê?

“Gastei os meus dias a ler diálogos de uma personagem que assumi desde o primeiro suspiro. Inútil. E agora que decido ler as falas certas, isso me acontece!...
“Eu o descobri quando completei a décima sexta volta ao redor do Sol. Verdadeiro reencontro. Tornamo-nos grandes amigos. Passamos então a subir ao palco juntos. Porém, o verdadeiro espetáculo tomava lugar com o cair das cortinas: era nosso.

“No décimo sétimo outono do seu corpo, ele desenvolveu esse estranho problema, denominado pelos pernósticos ‘Síndrome do Pânico’. As ruas deixaram de ser o seu palco, então passei a visitá-lo diariamente em sua casa. Muitas vezes passamos até as noites juntos. Apesar das complicações, nosso romance pulsava cada vez mais intenso. Outros médicos arrogantes e pedantes foram visitados, mas o pavor de sair às ruas não cessou. E dez invernos se sucederam.

“O dia de hoje construiu-se então. Eu havia retornado de sua casa, e, depois do jantar, o telefone tocou. Literatura alguma me preparara para aquela ligação. Sem fôlego, sua mãe me matava aos poucos com as palavras, contando-me que ele... Ele...”
A primeira lágrima atinge o papel. Depois outra. E outra.

“Ele tinha se suicid...”
A caneta nanquim lhe escapa dos dedos. Respira fundo. Murmura algo, retoma a caneta e retorna à folha.

“Deixou um bilhete para os que ficaram. Não entendo, não entendo! Como uma pessoa tão... Tão...”

Um “Ai!...” lhe escapa. Pára. Mais uma respiração.

“Só posso imaginar agora o sofrimento que ele escondia até de mim!, e espero que entendam o meu quando lerem esse diário.

“Eu o amava, mais que à vida. Sem ele ao meu lado, não tenho mais pulso para o teatro. O espetáculo acabou.

“E aquele beijo!... Foi o último ato.”

Rabisca mais algumas palavras e deixa o diário de lado. As páginas expostas. Olha pela janela. Avista o asfalto, dez andares abaixo. O vento agita-lhe os cabelos.

Os últimos rabiscos: “PS: hoje contaríamos ao mundo que éramos gays.”

Ouve-se o disparar de um alarme de carro.


Miniconto de 2001, 2º lugar em sua categoria do Concurso Literário dos Colégios Militares do Brasil.

1 Commentariu(s):

Fréderic disse...

Sempre imagino o Colégio Militar como um local avesso a concursos literários, ainda mais quando são levantados temas que, tomando por base os militares que já conheci, deixam qualquer sargento sem ter onde colocar as mãos. Gostei do miniconto, e ele me move em diversos momentos, o que é muito positivo, mesmo percebendo, nele, diversos pontos em que poderia ser lapidado e, como é um texto de 2001 (que idade você tinha? 15? para 15 anos, está mais que excelente, viu?), penso que você deva ver também uma série de trechos que teria escrito de maneira diversa. Eu fico louco com os meus textos. Deixo passar uma semana e já gostaria que estivessem todos ao avesso (risos).

Quero ver os contos novos. :)

Abraço forte!

 
Share-alike Copyleft. "Alguns direitos reservados"