Todos os dias passo na ponte do parque Akaifuu. Deixo que algum instante escorregue enquanto observo os tsurus dançando. Reconheço aquele casal, a pena vermelha única e deslocada na asa direita da fêmea e o macho de canto mais agudo que os demais. Ser um tsuru, com um parceiro-espelho dançando comigo: ininterruptos, anunciando ao mundo o tamanho da dor que nos tomaria se alguma distância fosse espremida entre nós; amadurecermos e dançarmos menos, e menos, e menos, para nos olharmos mais e adormecermos convolutos. Incrível como eles suportam tanto frio para bailarem frente a frente.
A tua falta de medo de perder a alma pela boca que me pôs devoto a ti por completo. Meu sangue pulsou ao contrário quando vi o quão brancos teus dentes eram naquele riso, naquela gargalhada. Toda a mesa ria comedida, segurando o que tinha por dentro com os dedos e a palma da mão; tu derramavas o ser feliz pelos cantos da boca, pelo palato à vista, pela úvula rosada – um espírito tão grande não temia escapar um tantinho só. E te ias como se sempre fosses voltar para completar o diálogo frouxo que restava nos ambientes abandonados.Ainda estava morno quando tu chegaste. Avistamo-nos no exato momento em que decidi não mais piscar os olhos. Saboreei o teu sotaque torto. E me pareceu óbvio o motivo de eu ter comprado os papeis de origami no dia anterior – faria agora mil tsurus, aos moldes dos dançarinos do parque, a fim de que pudesse desejar, quando estivessem prontos, ter ar para te dizer das belas sakuras que desabrocharam no parque, nas paredes do meu quarto e em mim naquele dia.
Ontem à tarde, quando todos no templo Niji, pendurei um amuleto pensando em ti. Pedi que o meu desejo fosse maior, maior que a espera pela Primavera.
Hoje me ponho de pé, diante do teu aconchegante portão verde, afundando devagar na neve teimosamente branca, buscando o fôlego no ar fino e raro do Inverno. Seguro para te dar, suave e firme, o meu desejo: o milésimo tsuru dobrado na estampa das mesmas sakuras internas.
Este tsuru é teu.
Alcanço a porta da frente, que é aberta quase a tempo de eu me evadir. Um aroma de chocolate escapa de lá, doce. Atrevo-me a pensar que estás a me preparar um chocolate pelo 4 de Fevereiro. Talvez com cerejas frescas? Surge então a anfitriã, o motor da porta astuta. Uma garota de cabelo brasil e olhos pactuados com a brasa dos fios. Ela não foca ponto algum que pudesse ser alcançado. Aproxima-se morosa e perene. E me põe na palma da mão, junto com algumas lágrimas (não sei a quem pertencem), uma pena vermelha.
Enterrei-os, todos os tsurus.

4 Commentariu(s):
Fiquei tomado de uma tristeza familiar quando li o texto. Uma vez passei literalmente por uma situação semelhante. Uma vez não, duas. Talvez seja por isto que soe familiar. Talvez porque o discurso amoroso seja, por natureza, cheio de arabescos.
Um abraço,
F.
Cada vez que eu leio esse conto ele se torna ainda mais especial. Essa minha fixação nipônica me mata! Saudades de tudo em você.
lindo...
Quem broca, broca!
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